05 maio 2008

Ao ritmo dos tambores


O foguete dispara em direcção ao céu. Os tambores começam a rufar de leve. As vozes sobem de tom. O pilão dá o mote... primeiro lento, depois cada vez mais forte... compassado... firme.

Também nós começamos a nossa dança... livre, cantada, gemida.
Ao ritmo dos tambores tudo nos é permitido, num cerimonial que segue a percussão. Às vezes suave, outras vezes intenso, sonoro, violento.

Cantamos com as coladeiras. Acompanhamos os gritos, os choros desafinados, os chamamentos, os sons da paixão...

O pilão continua sem parar, forte, cada vez mais forte. Os tambores acentuam-se, ecoam em nós... mais ritmados, mais intensos.
Subimos de tom, de jeito, de forma. Somos um só, sem fronteiras, nem distâncias. Quebrando todos os limites do possivel.
Sem tabus!
Sentimos o calor do vulcão. A força que emana do seu interior e nos queima, nos incendeia, numa chama devastadora, louca, desgovernada...
O tempo pára à nossa ordem. Só nós e os tambores, e as coladeiras (que cantam em extâse) e o encarnado da paixão, das vestes e da bandeira que se honra.

Esgotamos todas as forças...
Os tambores diminuem de ritmo...um de cada vez.
As mulheres sussurram os últimos cânticos... baixinho, como se fossem adormecer...
O pilão pára.
Resta um tambor lento... muito lento.
Ouve-se um último foguete a romper o céu, a impôr um final.
Tudo termina.
Olhamo-nos uma vez mais... sorrimos timidamente.

5 comentários:

João Branco disse...

Estás linda na fotografia (mas também apanhas o meu ponto fraco: adoro ver imagens de mulheres de costa, Tem uma energia especial).

Abraço de Soncent

Margarida disse...

Obrigado pelo elogio João. Espero que tenhas gostado do texto. Acho que também tem uma "energia" especial... Escrito ainda sob os efeitos do vulcão!

Beijinhos da Praia

Alex disse...

Margarida, gostei da farpa ao 'cafézeiro'.

Do texto também. Não sei porquê, mas para mim o teu texto termina no momento em que interrompes a acção com esse magnífico e súbito:
O pilão pára!
O texto vem todo ele em crescendo, ritmado, suado (ouve-se, sente-se, cheira-se), até atingir o climax, e interrompes a crónica com um corte limpo de "navalha".
Caramba, aqui chegados estremeci. A sério. Fui capaz de ouvir o silêncio.
Depois ... bem, para mim não havia depois. O depois seria a NOSSA fome de efabular (nossa de leitores), de imaginar o declinar do fim da festa, a clepsidra do tempo a esvaziar-se daquele êxtase, como areia a escorrer entre sussurros lentos.
Mas este é já o meu texto sobre o teu texto, a tua "estória" contimaginada por mim. E quem a um conto não acrescenta um ponto?
Mesmo que, neste caso, acrescentar signifique subtrair.
Ob p crónica.
Cps
ZCunha

Margarida disse...

Alex gostei do seu "ponto" ao meu "conto". Acho que um dia irei lançar um desafio de construção conjunta aqui no blog, vários pontos, ideias, sentenças e palavras, muitas palavras. O resultado seria surpreendente, não? Obrigado pela visita. Até sempre

João Branco disse...

Gostei muito do texto, Margarida. Para que conste, publique-se! hehe

 
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