18 dezembro 2008

Uma questão de horizonte...


Vista para o mar azul... ou vista para um horizonte, onde não reina nem o azul, nem o verde da esperança, nem outra cor que possa alegrar o dia a dia.

Assim se vive na Boavista entre dois mundos, que giram a duas velocidades, onde se movimentam pessoas, também elas de latitudes muito diferentes.

Tudo o que já foi escrito, dito, falado sobre o bairro da Barraca é pouco para descrever esse mundo onde as janelas não mostram uma vista grandiosa... onde nem sequer há janelas.
nem água; nem luz; nem segurança...
Onde se convive com o lixo... onde tudo se perde ao mínimo capricho da Natureza...

Pisei a Barraca pela primeira vez há cerca de um mês...
Visitei esse mundo cinzento, guiada pelos seus habitantes... gentes de Santiago; do Senegal; da Guiné.
Gentes que chegaram pela mesma razão, em busca do "eldorado" que o turismo da Boavista parecia prometer a quem lá conseguisse chegar.
Emprego para todos, bons salários, vidas mais dignas do que nas suas terras natal.
Ilusões que a Barraca vai acolhendo.
Porque ali há sempre mais um pedaço de chão onde construir quatro paredes de tijolo, de madeira, ou cartão... protegidas por uma chapa de zinco.

Ali vão chegando estes "náufragos", a bordo dos seus navios de sonhos desfeitos.

Ali conheci a "Dulce", num cubículo minúsculo que partilha com um companheiro e mais três filhos. Um cubículo que já resistiu à fúria das chuvas e a dois incêndios que praticamente devastaram todo aquele lugar.

De dia, "Dulce" é camareira num hotel de cinco estrelas na Praia das Chaves,, com vista para o mar azul; para a comida farta; para os bares, piscinas e infra-estruturas luxuosas...
À noite regressa ao bairro da Barraca; àquele sítio que nem se atreve a chamar de lar... ao sítio com vista para o nada, para um labirinto de casas desfeitas, de lixo e gente desiludida.

Uma questão de vistas... de horizontes.

Reportagem sobre a Boavista do "tudo incluído" e o bairro da "barraca" hoje no Nha Terra Nha Cretcheu

2 comentários:

Teatrakacia disse...

O texto, de facto, diz tudo. A partir do 'olhar' toda a diferença do que vai na alma e na vida dessas gentes marginalizadas, apesar do seu 'quinhão' na construção desse 'el dorado' que não é para todos...
Tchá

Margarida disse...

É verdade Tchá. E mais do que as palavras são as imagens... Já tive em muitos lugares por todo o país; mas poucos me impressionaram como este imenso bairro de gente anónima, que não vem nos cartões postais da ilha de todas as oportunidades.

 
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